8.16.2011

Silencio





Nas ruas das grandes cidades, se ouvia o vento. Todos os carros devidamente guardados em suas vagas. Ao contrário do que se imaginava que fosse acontecer, as pessoas continuaram calmas. Ha uma semana a notícia deixou de ser boato. Quando os especialistas deram o primeiro veredicto, há 3 meses, muitos entraram em desespero, mas a uma semana todos pararam.

Os presos foram libertos para passar os últimos dias em casa. Todos eles, sem exceção encontraram um lar e um perdão. Os guardas, agora velavam suas crianças, que dormiam. Era triste saber que elas não iriam saber a graça da primeira mentira, do primeiro sexo e do primeiro filho. Os doentes terminais, antes internados em UTIs, foram transferidos para suas respectivas casas, para morrerem junto com seus entes queridos. Os leprosos também voltaram, sorrindo.

Em muitas igrejas, fieis reunidos esperavam o juízo na forma da poderosa mão de Deus. Nos teatros muitos festejavam contando e cantando sobre os sonhos que ainda não tinham e nem teriam. Bares e boates estavam vazios, todos queriam morrer sóbrios. Shoppings foram abertos para que mendigos e sem tetos pudessem partir bem vestidos. Alguns rapazes que eram antes, forçados pela vida a puxar carroça, agora estavam limpos, sentados em praças de alimentação, usando sapatos de R$500 e com carteiras cheias de inúteis notas azuis.

Quem tinha alguma intriga com parentes tratou de reatar. Maridos abraçavam mulheres, que sorrindo admitiam que a vida a dois tinha valido a pena. Amantes pediam um espaço nas casas, dizendo que queriam passar as ultimas horas com quem amavam, prova de que realmente amavam (Eram sempre aceitos). Netos sentados nos colos de seus avôs perguntavam se o lugar pra onde todos vão tem internet. Quem morava só e não conseguiu ir para a casa de parentes, tratou de arrumar a casa, pegar um filme e se encher de doce.

As praias estavam lotadas, milhares de silenciosas silhuetas esperavam aquele que seria o ultimo por do sol da humanidade, que por sinal estava próximo, não mais que uma ou duas horas. Alguns transavam em silencio, sem se importar com a multidão ao redor que também os ignorava. Muitos e muitos choravam em colos alheios e outros muitos no próprio medo. Mais a frente via-se na água, diversos barcos que velejavam. Mas no céu ninguém voava.

Ninguém se suicidou nessa ultima semana...

1 Também sinto...:

  1. Sem luta alguma, todos já se acostumaram com a não tão velha e tão velha notícia do fim.
    Todos aceitaram, é o que importa.
    Ninguém tentou mudar. Não houve pessoas tentando fazer o que nunca fizeram. Não houve suicídios pela impossibilidade de concretizar o que não se vez enquanto o fim ainda não tinha data determinada.
    Não houve arrependimentos, nem justiça. O juízo foi deixado de lado.
    Finalmente todos se expressaram por um único sentimento?
    Esse é o real fim.

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